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Sim, dá para comer de um jeito gostoso e saudável depois da bariátrica

Por Helô Bacellar

Meu peso sempre foi na média. Nunca fui um palito, mas nunca fui obesa. A vida, porém, é traiçoeira, dá voltas e traz problemas e mudanças, às vezes drásticas e nada agradáveis. Em 2005, num piscar de olhos, minha vida virou de ponta-cabeça. Surgiram problemas graves de saúde, fiquei obesa, tive que enfrentar várias cirurgias, inclusive uma bariátrica delicadíssima do antes ao depois. Sofri muito, mas lutei ainda mais. Superei tudo e valeu tanto que, mesmo sendo doído remexer nas feridas e tristezas, decidi contar minha história e, quem sabe, ajudar alguém em situação parecida.

 

Veja também:

– Dicas sobre a alimentação de quem precisa passar pela bariátrica

 

Cada paciente é único e chega à bariátrica pelos motivos mais diversos. Cada equipe médica tem as suas preferências, métodos, técnicas e orientações. Entretanto, as mudanças no funcionamento do estômago, do intestino e da digestão são sempre grandes e alteram totalmente o estilo de vida de todos que se submetem a intervenções desse tipo. Os problemas são parecidos, e tudo acaba valendo para todos.

Comigo, tudo começou com uma uveíte seriíssima no olho direito e provável diagnóstico de artrite reumatoide. Em poucos meses, com todos os efeitos colaterais possíveis dos medicamentos – como síndrome de Cushing, pressão alta, anemia profunda, diabetes, hematomas, problemas de pele com estrias imensas, enfraquecimento da musculatura, dos tendões, das unhas e do cabelo, problemas nos joelhos, pés e coluna, apneia, menopausa e osteoporose –, ganhei 52 quilos. Sofri demais nos quatros anos seguintes. Mas a vida seguia, adorava a minha família, não parava de criar, de trabalhar, de tocar os meus projetos e escrever meus livros. Só que, mesmo cuidando demais da saúde, a uveíte tornou-se crônica, não cedia e bastava diminuir um tiquinho o corticoide para ela voltar com tudo, com dores alucinantes e perdas cada vez maiores da visão.

A caminho da bariátrica

Chegou um momento tão crítico que, depois de vários exames, biópsias, tentativas, estudos e opiniões de mais gastros e hepatologistas, surgiu a possibilidade de realizar uma bariátrica com bypass e retirada de parte do intestino delgado e, ainda que indiretamente, aliviar o fígado para conseguir que ele se recuperasse da hepatite medicamentosa gravíssima com fibrose adiantada em decorrência de uso prolongado e em quantidades elevadas de corticoides.

O cirurgião explicou o procedimento, e a nutricionista falou do pós-operatório, das fases das dietas líquida e pastosa, dos alimentos permitidos e dos proibidos. Eu perguntei o que pude. Precisava saber o mínimo sobre os motivos de tantos podes e não podes e queria entender sobre a ingestão, a digestão e a eliminação dos alimentos. Compreendi que quem não incorpora as atitudes todas para mudar a vida para valer, não leva a dieta a sério e acha que a cirurgia é mágica porque a perda de peso acontece é justamente quem corre riscos graves no pós-operatório e acaba “reganhando” peso em pouco tempo.

Eram boas as chances de melhora geral da saúde, de emagrecer, de voltar a ocupar um lugar menor no espaço, talvez até de conseguir me olhar e me reconhecer no espelho, além de recuperar a antiga identidade e a autoestima.  Conversei com o meu marido, nossas filhas, meus pais e irmãos, passei umas boas horas com o meu psiquiatra e senti o apoio de todos. Não teria tempo de me preparar para a bariátrica como fazem os pacientes em geral, mas sabia que daria conta. A cirurgia foi marcada para a semana seguinte.

Preparando o terreno

Senti que, pela primeira vez na vida, eu teria que pensar na minha alimentação com o mesmo afeto que colocava na comida que fazia para todo mundo. Comecei a pensar na dieta totalmente líquida, que aconteceria justamente nos dias em que estaria mais debilitada. Decidi que cozinharia com antecedência e congelaria o possível. Fui à feira e comprei os melhores ingredientes que pude, pois a partir deles acontece a boa comida. O purê será sofrível e nada nutritivo virá de uma batata murcha e brotada ou de uma cenoura cheia de agrotóxicos e sem gosto de cenoura.

Coloquei três panelas no fogo. A primeira tinha um peito de frango com osso e sem pele, para ter sabor, mais nutrientes e pouca gordura, legumes aromatizantes e água. Na segunda, o conteúdo era praticamente igual, só troquei o peito do frango por cubos de patinho bovino limpíssimos de gordura. Na terceira, reuni só cogumelos variados, que têm proteínas, e os aromatizantes. Uma hora depois, eu estava com três caldos prontos, feitos de forma simples e prática, apenas colocando os ingredientes de cada receita numa panela e cozinhando até amaciar. Peneirei cada um deles, separei os cogumelos, desfiei a carne e o frango e congelei tudo em porções de 50 g para consumir quando a dieta permitisse. Coloquei os caldos em bandejas de gelo com cavidades de uns 30 ml, etiquetei para identificar, congelei, depois soltei e armazenei os cubinhos em sacos separados no freezer. Assim, na hora de cada refeição, eu só teria que pegar os cubinhos necessários e aquecer.

Dicas que fazem diferença 

Os meus três caldos me alimentariam no início da fase líquida, que exigia caldos totalmente ralos e sempre variando. Na fase seguinte, eles seriam a base nutritiva e saborosa das sopas e dos purês. Eu não conseguiria viver de legumes sem emoção e cozidos em água ou em caldos industrializados padronizados e artificiais.

Fui me convencendo de que seria até desafiante e divertido pensar numa alimentação nutritiva, gostosa, leve e colorida para esse período. Sabia que as privações disso ou daquilo me entristeceriam, mas eu teria que mudar o foco para não enlouquecer, ainda mais sendo alguém que pensa direto em comida, que passa o dia pesquisando, testando e escrevendo sobre comida e os sentimentos que envolvem as pessoas ao redor da mesa.

Também para desentristecer os momentos das refeições, separei xícaras, tigelinhas, potinhos e colheres de chá para servir, e ainda imaginei florzinhas enfeitando os espaços vazios da mesa para alegrar. Achei que a louça teria que ser sempre proporcional à porção da dieta, pois seria deprimente receber um pouquinho de comida num prato grande. Igualmente, não seria bom ficar olhando um monte de comida e não poder pegar mais um pouco. O bom seria poder “comer tudo”. Psicológico? Sim, mas importante demais.

A rotina do pós-operatório

Depois da cirurgia, adorei voltar para casa, encontrar as meninas, ver o jardim e entrar na cozinha, mesmo sentindo uma ponta de tristeza por saber que, por um tempo bem razoável, não teria a liberdade de fazer e de comer o que quisesse. Entrei logo na rotina da água de coco, que eu adoro até hoje, mas cansava, e dos meus três caldos alternados. Fazia questão de tomar os caldos naquelas xícaras lindas, e eles ficavam mesmo mais gostosos.

Com uma semana de cirurgia, as porções aumentaram um pouco e pude tomar um creme de legumes, a sopa de batata com alho-poró e a sopa de cenoura com laranja-lima, todos ainda bem ralos, mas era um progresso. Percebi que meus grandes aliados na cozinha eram o mixer, que batia tudo num copo qualquer, e a peneira de malha bem fina, para passar legumes e frutas, deixar os purês lisos e separar os sólidos dos caldos. Na hora de peneirar é que a gente percebe o quanto de fibras e de pedacinhos há em quase tudo. O liquidificador comum foi um desastre, as quantidades mínimas espirravam para os lados e não sobrava nada (hoje tenho um miniliquidificador com copo pequeno que teria sido bem útil à época). Cozinhava em panelinhas ou em refratários pequenos no micro-ondas. Era quase como cozinhar para um bebê nos primeiros dias de papinha.

Começava o dia com mingau de farinha de aveia e ameixa seca e, quando pude, passei a usar uva-passa ou damasco. Na metade da manhã e da tarde, eu comia algo com fruta e almoçava e jantava uma das sopas. Para os lanches, cortava pedaços de uma das frutas da lista (banana, maçã, pera, manga, figo, pêssego, etc), colocava num potinho com uma ou duas especiarias para perfumar (gostava de usar cravo, canela, noz-moscada e anis), levava ao micro-ondas por uns minutos, passava pela peneira e tinha um purê delicioso. Também gostava de bater frutas com leite desnatado, iogurte desnatado ou tofu com o mixer, depois peneirava e tomava num copinho. Para variar esses shakes e smoothies, eu também juntava especiarias ou ervas como hortelã e manjericão. Assim, os lanches passaram a ser momentos divertidos e de alguma doçura.

Incentivos e adaptações

Às vezes, amanhecia cansada e sem forças, mas fazia questão de levantar, trocar de roupa e sair do quarto, pois queria ficar boa o quanto antes. E era exatamente isso que as consultas e os exames mostravam, dia após dia eu perdia peso e a saúde melhorava. Parecia um sonho! No dia do nosso aniversário de casamento, convidei o meu marido para brindar com água de coco, tomar comigo a sopa verdíssima e linda de abobrinha, chuchu e ervilha e, de sobremesa, saborear o puff de banana, um suflezinho leve feito só com a fruta cozida e amassada com clara batida, pois não podia comer gema.

Fui melhorando, já conseguia me distrair por mais tempo. Escrevia, lia, bordava, fazia crochê e assistia a um filme por dia, pois não sou muito de televisão. Só não deixava de parar de meia em meia hora para tomar uns goles de água de coco, pois não queria correr o risco de me desidratar.  Às vezes, sentia falta de mastigar alguma coisa, mas procurava pensar que a dieta não seria para sempre, mesmo porque não havia outro jeito. O que eu podia – e fazia  – era variar as receitas líquidas e já um pouco pastosas para não enjoar.

Para não ficar repetindo o mesmo prato por refeições seguidas, eu preparava a quantidade mínima possível de cada receita. Fazia sopa com uma única batata ou cenoura, ou com uma mistura daquelas abobrinhas miúdas, menos de 1/2 xícara de ervilha congelada e 1/4 de chuchu e sempre cozinhando com o mínimo de líquido. Assim, a preparação rendia duas ou três porções. Exatamente por isso, as receitas que escolhi para esta Mesa rendem normalmente duas a três porções. Só são maiores nos casos dos caldos e da sopa cremosa de legumes, que não funcionam em quantidades pequenas, além de serem versáteis em outras preparações e congelarem bem.

Até que chegou o dia tão sonhado, pesei na consulta e estava com 99 quilos! Sair do patamar assustador dos 100 quilos era uma vitória e tanto. Para comemorar, cozinhei mandioquinha no caldo de frango, bati com o mixer, peneirei, juntei clara em neve, pois gemas ainda eram proibidas, fiz um suflê e jantei feliz demais. Aliás, no caso do suflê, não foi difícil fazer com que o meu marido e as meninas também comessem um pouco, mas isso nem sempre acontecia. Não foi tão fácil conseguir que experimentassem o shake de morango com tofu, mas depois acharam muito bom, e é mesmo. O creme de salsinha também faz sucesso como dip para palitos de cenoura ou pepino e o purê de abóbora com canela e anis é delicioso, só provando para saber. A verdade é que eu ficava feliz quando alguém aprovava as minhas comidinhas.

Com quase dois meses de cirurgia eu já estava perto dos 90 quilos e esse era o maior incentivo para suportar uma dieta que exigia força de vontade imensa. A disposição e a agilidade na hora das atividades físicas e da fisioterapia eram tão incríveis, nem lembrava mais que dois meses antes eu mal conseguia me mexer e morria de dor para fazer qualquer movimento. O melhor de tudo era caminhar com leveza e muito menos esforço.

Incômodos e aprendizados

Entretanto, tenho que contar que, às vezes, aconteciam coisas que me desanimavam bastante. Um dia, comi uma colherada de purê de banana e fiquei mal, enjoada demais, e comecei a desmontar de tanto sono. No dia seguinte, senti aquilo tudo de novo e fui conversar com o cirurgião. Ele me explicou que se tratava de um desconforto conhecido por dumping, que algumas pessoas sentem quando comem muito doce e outras só com alimentos mais gordurosos ou quando comem rápido. Infelizmente, isso ainda acontece de vez em quando. Aprendi que o processo todo não leva mais do que uns 20 minutos e então passa. Lido com isso comendo devagar e aos poucos, pois não associei essa reação a nenhum alimento específico.

Também tive que aprender a lidar com o fato de que o que achamos que podemos comer muitas vezes é diferente do que de fato conseguimos comer. Aquele ditado “ter o olho maior que a barriga” explica bem. Já peguei uma banana achando que a comeria inteira, dei duas mordidas e parei porque não aguentava mais. É estranho, mas com o tempo se aprende. Aliás, quando saí para jantar fora pela primeira vez, fiquei aflita demais quando dei duas ou três garfadas e nem tinha chegado perto da metade do prato. Vieram me perguntar se havia algum problema com a comida, fiquei mais tensa ainda. Então, pensei em mim, falei que estava ótimo, que eu é que estava indisposta e pedi para embrulharem o restante para viagem. De lá para cá, isso já aconteceu inúmeras vezes, mas nem ligo mais. 

Segui a dieta com perfeição e cuidei de mim com carinho em todas as fases. Incorporei atividade física, terapias e constante acompanhamento médico e nutricional ao meu dia a dia. Pedi e aceitei ajuda, mantive a minha cabeça e os meus dias ocupados, e sempre fiz de tudo para pensar que a vida mais saudável e livre da obesidade havia deixado de ser uma promessa. Já era realidade.

Continuo cozinhando sempre, experimentando de tudo por aí. Como frutas, verduras, legumes, cereais, iogurte e queijos, carnes vermelhas, aves e peixes de vez em quando. Adoro pão, bolo, doce, sorvete e chocolate. Apenas como com moderação e sempre aos pouquinhos e ao longo do dia.

As receitas que preparei para a Mesa Clínica Einstein: Cirurgia Bariátrica são as que fiz para mim. Foram as que me deram conforto e deixaram os meus dias do pós-bariátrica mais felizes, saborosos e saudáveis. Os ingredientes são comuns e os preparos, simples, até quem nunca fez comida em casa pode fazer, basta ter coragem e começar. Garanto que vale a pena tentar. Comida caseira é tudo de bom e, num pós-operatório que exige tanto rigor, nada como saber que o que se come é verdadeiro.

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