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Você tem fome de quê?

Crianças devorando com gosto um prato lindo, com todos os grupos alimentares presentes – incluindo verduras e legumes! – é o sonho de consumo de todos os pais. Mas esse maravilhoso mundo da alimentação infantil saudável não se materializa do nada. Cabe aos pais ajudar os filhos a construir uma relação consciente e amigável com a comida desde o berço. E isso pode ser feito naturalmente, incluindo a criança nas mais diversas situações do dia a dia relacionadas ao alimento.

Foi assim que aconteceu com Cris Paulo, a líder de nossa Mesa Culinária para Crianças. “Para mim, foi importante todo e qualquer contato que tive na infância com ingredientes e preparos, momentos que ficaram marcados em minha memória afetiva”, diz ela.

Cris acompanhava sempre com grande curiosidade as avós preparando doces e sobremesas para a família. No começo, só observando. Mas, aos poucos, era convidada pelas avós a colocar a mão na massa em tarefas mais simples, como fazer gotinhas de suspiros em uma forma que depois era levada ao formo para assar. “Uma coisa que eu amava era separar as claras das gemas. Minha avó pedia para que eu fizesse isso, mesmo quando não havia essa indicação na receita, apenas porque sabia que eu adorava ver as claras escorrerem por entre meus dedos até sobrar apenas a gema, com todo cuidado para que ela não quebrasse”, descreve. Eis aí uma forma de estreitar os laços da criançada com os alimentos, de forma lúdica. Essa é uma orientação que Cris procura seguir nos cursos de culinária infantil que ministra em sua doceria, a S.O.S Cupcakes (www.soscupcakes.com.br @soscupcakes). Veja mais algumas de suas dicas:

Valorize o ritual de fazer uma refeição – “É algo que julgo muito importante para o desenvolvimento do prazer em comer dos pequenos”, diz. É preciso um certo esforço para reunir, ao menos uma vez por dia, a família em torno de mesa de refeições e dedicar o tempo e a atenção necessários a esse momento especial. Isso inclui não levar para a mesa celulares, tabletes ou qualquer outra distração. “Fazer deste momento algo gostoso é importante para os pequenos. Sentar em uma mesa posta, rodeada de parentes queridos e conversar sobre o cotidiano enquanto comem uma refeição feita em casa não tem preço”, diz. “É uma forma de criar aquele sentimento de que a hora da refeição é um momento de união, de comer algo bem gostoso e feito com carinho”.

Convide os pequenos a “ajudar” nas compras de supermercado – Está guardadinho na memória de Cris: todas as terças-feiras era dia de ir ao mercado com seu pai. “Era um programa muito divertido. Ele mesmo gostava de `lançar` alguns produtos para mim a distância e sempre soube fazer dessas idas ao mercado uma atividade divertida e, ao mesmo tempo, educativa. Aprendi com meu pai como escolher produtos e as quantidade para uma casa com quatro pessoas”, diz Cris, que também empregou o aprendizado em sua vida profissional. “Até hoje, quando faço compras para minha confeitaria, arrumo no porta-malas tudo do jeito que ele me ensinou para preservar os produtos direitinho”, diz.

Escolher frutas e verduras é outro programão – O contato com ingredientes frescos seja no sacolão ou numa feira livre é enriquecedor e necessário.  “Toda criança deve saber que suco não vem da caixinha e que o tomate e o caqui são parecidos”, diz Cris. “Eu me lembro de aprender como escolher abacaxi (puxando um dos cabinhos do meio, se sair fácil estão bons) e limão (apertar e quanto mais molinho, mais suco). Gravei na memória, pois foi algo divertido de se descobrir”, conta ela. Nesse caso, a dica é não apenas levar a criança a uma feira livre e faze-la andar de cima a baixo até se cansar. “Assim, ela só ficará entediada. Faça com que participe da escolha das frutas, legumes e o que mais for comprar. Temperos? Apresente os aromas. Peça para ela cheirar e sentir”, orienta.

Inclua seus filhos nas tarefas da cozinha – “As interações em casa são sempre ricas”, diz Cris. Para as crianças, quebrar um ovo, mexer a massa de bolo, pegar algo na geladeira e até ajudar a colocar a mesa e lavar a louça podem ser situações super lúdicas e educativas. “Eu me lembro de ajudar na louça ao final de algumas receitas feitas em casa com meus pais e das boas lições que aprendi com isso. Afinal, cozinhar é divertido, mas noções de higiene (lavar as mãos e ingredientes), organização (limpeza da bancada e louça), redução de desperdícios são extremamente importantes e a gente acaba internalizando ao participar dessas atividades”, observa

Nesse caminho, a escola também pode contribuir. É o que acontece, por exemplo, com o Colégio Magno, em São Paulo, que contratou os jovens chefs Gabriel Coelho e Julia Tricate, do Plantar Sabor (www.plantarsabor.com.br @plantarsabor), para estruturar um novo projeto de alimentação dos alunos. A ideia é que a escola ajude na definição de bons hábitos alimentares dos alunos, com a oferta de comida saudável e saborosa. “Não se trata apenas de fazer crianças e adolescentes a comerem mais legumes e verduras. Muitos dizem que não gostam de alimentos que sequer provaram. Então, nosso desafio é convencer a criançada a experimenta-los para só depois definir o que gostam ou não”, diz Julia.

E estão conseguindo. “Também mantemos um canal com os pais dos alunos e temos bons feedback. Já tive pais perguntando como preparamos o peixe no colégio, pois o filho come e adora. Mas em casa torce o nariz para esse ingrediente”, conta a Julia. Ela e Gabriel também auxiliam os professores em atividades na sala de aula que ajudam os estudantes a construir uma relação saudável com os alimentos. Um exemplo? As turmas do nono ano estão estudando sobre as plantas alimentícias não convencionais, as chamadas PANCs. E Gabriel e Julia entraram no circuito para ensiná-los a fazer uma pizza com cobertura de dente-de-leão, uma dessas plantas, que será servida para os visitantes na próxima feira cultural do colégio.

Em Santa Catarina, a nutricionista Lidiane Barboasa (@lidi_barbosa) também desenvolve uma atividade parecida, como voluntária, em escolas públicas das cidades de Blumenau e Indaial. É o Projeto Crescer e Semear que promove atividades com crianças de 4 a 16 anos, em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais. “O pacote reúne educação alimentar, financeira e socioambiental”, diz a nutricionista.

No primeiro ano, realizam o workshop Mão na Massa. “Exibimos vídeos sobre a importância de uma alimentação saudável, falamos sobre aproveitamento integral dos alimentos e convidamos as crianças a prepararem algumas receitas. Sempre usamos nessas receitas algum ingrediente que eles não gostam muito para que provem o prato depois de pronto e vejam que fica gostoso”, diz Lidiane.

No segundo ano, o projeto retorna à escola com um minisupermercado e convida os alunos a irem às compras. “Depois avaliamos juntos o que cada grupo comprou, procurando fazê-los refletir mostrando que algumas escolhas poderiam ser melhores do ponto de vista nutricional do que as que eles fizeram”, explica Lidiane.

Um trabalho paralelo também é feito com as merendeiras das escolas. “Procuramos dar orientação sobre preparos mais saudáveis e aproveitamento integral dos alimentos”, explica a nutricionista. “Muitas delas, por exemplo, colocavam na panela a carne moída ainda congelada. Mostramos que se elas tirassem o produto do forno um dia antes para que descongelasse, o sabor seria melhor. E realmente o prato passou a fazer mais sucesso com as crianças depois dessa mudança”, conta Lidiane.

Um sinal de que estão no caminho certo, segundo Lidiane, é que nas escolas onde o projeto é desenvolvido houve uma significativa redução de alimento que vai para o lixo. Ou seja, a educação alimentar, além de crianças melhor nutridas, também produz consumidores mais conscientes, que evitam o desperdício.

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